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BESS no Brasil: como o avanço regulatório pode destravar investimentos e transformar a matriz energética

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Publicado em 19 fevereiro 2026

A transformação da matriz elétrica brasileira depende não apenas de fontes renováveis, mas também de soluções avançadas de armazenamento de energia. Entre essas, os sistemas BESS (Armazenamento de Energia em Baterias) se destacam como elementos críticos para garantir flexibilidade, confiabilidade e eficiência, pilares para um sistema elétrico moderno.

 

No Brasil, o BESS está deixando de ocupar um papel “tático”, visto até então como solução pontual para qualidade de energia, back-up ou alívio de restrições locais, para se consolidar como infraestrutura crítica do Sistema Interligado Nacional (SIN).

 

Essa virada começa no plano institucional: a Lei 15.269/2025 inaugura um marco legal que reconhece o armazenamento como atividade do setor elétrico, colocando-o explicitamente no perímetro regulado e fiscalizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), ao lado de geração, transmissão e distribuição.

 

Na prática, isso muda o “status” do BESS no Brasil. Ao criar diretrizes para regulamentação do armazenamento, a lei abre caminho para regras específicas de acesso à rede, remuneração e enquadramento contratual – elementos que eram até aqui tratados de forma fragmentada e elevavam o risco regulatório dos projetos.

 

A partir desse marco, BESS deixa de ser apenas um complemento tecnológico e passa a ser um ativo estruturante de flexibilidade, capaz de entregar serviços essenciais ao sistema, como deslocamento temporal de energia (energy shifting), atendimento a picos de potência, suporte à confiabilidade, e integração mais eficiente de renováveis variáveis (eólica e solar), reduzindo os cortes de geração e a necessidade de reforços mais caros em rede e geração de ponta.

 

 

BESS deve gerar muitas oportunidades

O efeito esperado é direto sobre os investimentos. Com maior previsibilidade regulatória e instrumentos de contratação mais aderentes ao valor sistêmico do armazenamento, análises do setor, apoiadas em estudos técnicos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), indicam que o BESS pode destravar até R$ 40 bilhões em investimentos nos próximos anos.

 

Esse potencial decorre, sobretudo, da redução das incertezas associadas à remuneração, ao enquadramento regulatório e à captura de valor dos serviços prestados ao sistema – uma sinalização que vem sendo amplamente discutida por agentes do mercado e acompanhada por veículos econômicos especializados.

 

Esse movimento se torna ainda mais concreto com a agenda de contratação. O primeiro leilão dedicado de armazenamento já entrou no radar do governo e do mercado, com previsão para 2026 (no formato LRCAP – Armazenamento, em consulta pública), indicando o início da construção de um modelo de contratação que remunere potência e disponibilidade de forma compatível com o papel do BESS na segurança do suprimento.

 

A partir daqui, a discussão deixa de ser “se” o BESS entra de vez no setor elétrico e passa a ser “como” ele será integrado: quais produtos serão contratados (potência, serviços ancilares, alívio de rede), como será o sinal locacional, como mitigar riscos de performance e degradação, como estruturar conexão e despacho, e como combinar BESS com renováveis, redes e resposta da demanda.

 

É nesse ponto que se abrem as oportunidades mais relevantes e, também, os desafios mais técnicos, para investidores, desenvolvedores, transmissoras, distribuidoras e consumidores livres que buscam competitividade e resiliência em um sistema elétrico cada vez mais dinâmico.

 

O papel estratégico do BESS na transição energética

A transição energética global tem como pilares a descarbonização, digitalização e descentralização. No Brasil, a expansão de fontes renováveis (principalmente solar e eólica) tem elevado a participação dessas fontes na matriz elétrica, criando novos desafios de operação para o SIN.

 

Enquanto hidrelétricas tradicionais oferecem capacidade de regulação, as fontes renováveis variáveis exigem soluções que possam:

  • Armazenar energia em períodos de sobra
  • Liberar energia em momentos de déficit
  • Atuar em resposta a variações rápidas de carga e geração
  • Suportar serviços ancilares críticos (frequência, tensão, reservas)

Com isso, os BESS ganham relevância, já que são sistemas que armazenam energia elétrica em baterias e a disponibilizam sob demanda, com alta velocidade de resposta e flexibilidade operacional.

 

Além dos impactos diretos no sistema elétrico, há benefícios que se estendem para outros stakeholders:

  • Consumidores industriais e comerciais: redução de demanda contratada e custos
  • Operadores de rede: melhorias operacionais e redução de contingências
  • Ambiente: apoio à redução de emissões e uso eficiente de recursos
  • Mercado financeiro: abertura de novas classes de ativos investíveis

Essa amplitude torna o BESS um vetor de transformação econômica e tecnológica.

 

O que é um sistema BESS e como ele funciona tecnicamente

Um BESS é um sistema eletroeletrônico integrado projetado para armazenar energia elétrica e disponibilizá-la ao sistema de forma controlada, rápida e confiável. Diferentemente de soluções convencionais de geração, o BESS atua como um ativo de flexibilidade, capaz de responder quase instantaneamente às variações de carga, geração e condições operacionais da rede elétrica. Essa característica o torna especialmente relevante em sistemas com alta participação de fontes renováveis intermitentes.

 

Do ponto de vista técnico, um sistema BESS é composto por um conjunto de subsistemas interdependentes que operam de forma coordenada para garantir desempenho, segurança e longevidade do ativo.

 

No centro da solução estão os módulos de baterias, responsáveis pelo armazenamento da energia. Esses módulos podem utilizar diferentes químicas, como íon-lítio, lítio-ferro-fosfato ou baterias de fluxo, e são determinantes para a capacidade total do sistema, sua densidade energética, comportamento térmico e vida útil ao longo do tempo.

 

Associado diretamente às baterias está o Sistema de Gerenciamento de Baterias (Battery Management System – BMS), que exerce papel crítico na operação segura e eficiente do BESS. O BMS monitora continuamente parâmetros como tensão, corrente, temperatura e estado de carga das células, garantindo o balanceamento adequado entre elas, protegendo o sistema contra condições anormais, como sobrecarga ou descarga profunda, e otimizando a degradação ao longo dos ciclos de operação.

 

A conversão de energia entre o sistema de armazenamento e a rede elétrica é realizada por meio de inversores bidirecionais, também conhecidos como sistemas de conversão de potência. Esses equipamentos permitem a conversão da corrente contínua (DC), armazenada nas baterias, em corrente alternada (AC) compatível com a rede elétrica, bem como o processo inverso durante a fase de carregamento.

 

A qualidade, eficiência e capacidade de resposta desses inversores são determinantes para o desempenho do BESS em aplicações como serviços ancilares e controle dinâmico da rede.

 

Complementando a arquitetura, o sistema de controle e supervisão atua como o cérebro do BESS. É uma camada de software avançado responsável por coordenar a operação do sistema com base em múltiplas variáveis, incluindo sinais do mercado de energia, comandos do operador, condições instantâneas da rede elétrica e estratégias pré-definidas de despacho.

 

Essa camada é normalmente integrada a sistemas supervisórios, como SCADA e Energy Management Systems (EMS), permitindo operação remota, automação e análise em tempo real.

A operação de um BESS se estrutura fundamentalmente em dois ciclos principais.

 

No ciclo de carga, o sistema absorve energia da rede elétrica ou diretamente de uma fonte renovável, armazenando-a para uso posterior. No ciclo de descarga, a energia acumulada é devolvida ao sistema de forma controlada, seja para atender a picos de demanda, fornecer suporte à rede ou aproveitar oportunidades econômicas.

 

Além desses ciclos básicos, os sistemas BESS modernos desempenham uma série de funções avançadas. Eles são capazes de responder rapidamente a variações de frequência, contribuindo para a estabilidade do sistema elétrico, realizar regulação de tensão a nível local, atuar como reserva operativa em situações de contingência e apoiar estratégias de mitigação de riscos de blecaute, reduzindo o risco de desligamentos não programados.

 

Em aplicações industriais e comerciais, o BESS também é amplamente utilizado para redução de picos de demanda, mitigando picos de demanda e reduzindo custos associados à contratação de potência.

 

Cada uma dessas funções exige lógica de controle específica, algoritmos sofisticados e uma integração robusta com os sistemas de supervisão e despacho do operador. É essa combinação entre engenharia elétrica, eletrônica de potência e inteligência de controle que transforma o BESS em um componente essencial para a modernização e a resiliência do sistema elétrico.

 

Tipos de baterias e suas implicações técnicas

A definição da tecnologia de bateria é um dos pontos mais críticos no projeto de um sistema BESS, pois impacta diretamente o desempenho técnico, a viabilidade econômica e a segurança operacional ao longo de todo o ciclo de vida do ativo. Diferentemente de outras infraestruturas elétricas, nas quais componentes podem ser substituídos ou atualizados com relativa facilidade, a tecnologia de armazenamento escolhida condiciona decisões fundamentais de engenharia, operação e manutenção.

 

Cada química de bateria apresenta características próprias de densidade energética, eficiência, comportamento térmico, tempo de resposta, degradação ao longo do tempo e requisitos de segurança, influenciando diretamente o custo total de propriedade (TCO) e a adequação do sistema às diferentes aplicações no setor elétrico.

 

Do ponto de vista do investidor, a seleção da química adequada define:

  • A adequação do BESS aos serviços contratados (arbitragem, serviços ancilares, capacidade ou confiabilidade)
  • A exposição a riscos operacionais e tecnológicos
  • A necessidade de sistemas auxiliares (como climatização e segurança)
  • A vida útil esperada e os ciclos de substituição
  • A atratividade do ativo para financiadores e seguradoras

Por esse motivo, a seleção da tecnologia de bateria não deve ser baseada apenas no custo inicial por kWh, mas em uma avaliação integrada que considere o perfil de uso esperado, a duração dos ciclos, os serviços a serem prestados (como arbitragem, serviços ancilares ou suporte à rede), as condições ambientais e os requisitos regulatórios e de segurança.

 

A seguir, confira as principais tecnologias atualmente utilizadas no desenvolvimento de sistemas BESS, com suas respectivas implicações técnicas e operacionais.

 

Íon-lítio (Li-ion)

É a tecnologia dominante em sistemas BESS:

  • Alta densidade energética
  • Rápida resposta de potência
  • Boa eficiência (>90%)
  • Amplamente usada em aplicações de frequência, arbitragem e serviços ancilares

Lítio-Ferro-Fosfato (LFP)

Variante de Li-ion com maior estabilidade térmica:

  • Maior segurança operacional
  • Vida útil mais longa
  • Custo competitivo
  • Ideal para aplicações de longa duração e ciclos mais profundos

Baterias de fluxo

Tecnologia emergente com troca de eletrólitos:

  • Excelente escalabilidade
  • Alta durabilidade
  • Boa opção para durações longas (> 4 horas)

Outras químicas, como sódio-íon e baterias avançadas de estado sólido, estão em desenvolvimento e podem entrar no mix em médio prazo.

Arquitetura típica de um sistema BESS

Do ponto de vista de engenharia, um sistema BESS é mais do que um banco de baterias. Ele envolve uma arquitetura de integração que engloba:

  1. a) Interconexão com a subestação: ligação com barramentos de média ou alta tensão, dependendo da escala
  2. b) Unidades de potência (PCS – Power Conversion System): controlam a conversão DC/AC com alta eficiência e tempos de resposta reduzidos
  3. c) Sistema térmico e de segurança: pontos críticos para garantir estabilidade térmica e prevenção de eventos de falha
  4. d) Sistema de energia de apoio (UPS + backup): garante continuidade em caso de emergências
  5. e) Integração com sistemas de controle (EMS/SCADA): permite operação remota, telemetria e lógica avançada de despacho

 

BESS Maxima: engenharia aplicada para flexibilidade e confiabilidade do sistema elétrico

O BESS Maxima é um projeto estratégico que ilustra como a engenharia especializada pode viabilizar a integração de sistemas avançados de armazenamento de energia em infraestruturas elétricas existentes, fortalecendo a flexibilidade e a confiabilidade da rede.

 

Desenvolvido nas proximidades da Usina Maxima, na Holanda, o projeto integra um sistema BESS com o objetivo de apoiar a operação do sistema elétrico, absorvendo variações de geração e demanda e contribuindo para a estabilidade do fornecimento de energia.

 

O principal desafio do empreendimento esteve na integração do sistema de armazenamento à infraestrutura energética já instalada, garantindo, desde a fase inicial, alto desempenho, segurança operacional e aderência aos requisitos técnicos.

A complexidade desse tipo de projeto exige decisões precisas de engenharia, tanto no desenho da solução quanto na sua implantação, para assegurar que o BESS entregue os serviços esperados ao sistema elétrico ao longo de todo o seu ciclo de vida.

 

A Tractebel atuou na Engenharia do Proprietário desde o início da fase de construção, assumindo um papel central na revisão de projeto, supervisão técnica e garantia da qualidade. Essa atuação assegurou que o sistema fosse desenvolvido em conformidade com as especificações da ENGIE e com as melhores práticas internacionais de engenharia, mitigando riscos técnicos, operacionais e de desempenho, e garantindo uma entrega robusta e segura.

 

Esse case reforça como a engenharia aplicada ao armazenamento de energia é um elemento-chave para transformar soluções tecnológicas em ativos estratégicos, capazes de gerar valor sistêmico, segurança operacional e sustentabilidade para o setor elétrico.

 

A expertise em engenharia consultiva como fator decisivo para viabilizar projetos de BESS

 

O avanço regulatório do sistema BESS no Brasil cria uma janela única de oportunidade, mas capturá-la exige muito mais do que tecnologia disponível ou interesse do mercado.

 

Projetos de armazenamento demandam engenharia altamente especializada, capaz de integrar requisitos regulatórios, desempenho técnico, segurança operacional e viabilidade econômica desde as fases iniciais.

 

A definição correta da arquitetura, da tecnologia de baterias, das estratégias de conexão e despacho, bem como a mitigação de riscos de degradação, desempenho e integração à rede, são fatores decisivos para transformar o potencial do BESS em ativos confiáveis e financeiramente sustentáveis.

 

Com experiência global em sistemas de armazenamento, geração, redes elétricas e transição energética, a Tractebel atua como parceira estratégica ao longo de todo o ciclo de vida dos projetos, do planejamento e estudos de viabilidade à Engenharia do Proprietário, implantação e operação.

 

Ao combinar engenharia multidisciplinar, visão regulatória e profundo entendimento do sistema elétrico, apoiamos investidores, desenvolvedores, utilities e consumidores na estruturação de projetos de BESS preparados para atender às exigências do novo marco regulatório e contribuir de forma concreta para a modernização, resiliência e descarbonização da matriz elétrica brasileira.